Segunda-feira, 11 de Julho de 2005

Texto de Português

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Esta é uma redação feita por uma aluna do curso de Letras, da Universidade Federal de Pernambuco - Recife e que obteve vitória em um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa.
"Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida
E o artigo era bem definido, feminino singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.
Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir.
E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos.
Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.
Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa.
Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.
Ficaram conversando, sentados num vocativo quando ele começou outra vez a se insinuar.
Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.
Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.
É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.
Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa.
Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta. Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisso a porta abriu repentinamente.
Era verbo auxiliar do edifício.
Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício.
O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal Que loucura, minha gente.
Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.
Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos.
Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois.
Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo,resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva."
É DEZ, A NOTA É DEZ


(recebido por mail)
publicado por Intemporal às 08:06
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18 comentários:
De Anónimo a 25 de Julho de 2005 às 13:08
Primeiro lugar merecido na íntegra! Muito bem escrito!...Kita
(http://azuleazul.blogs.sapo.pt/)
(mailto:tricia20@iol.pt)
De Anónimo a 18 de Julho de 2005 às 09:56
Oi! Gostei mt deste post e acho que esta redacção está fantástica e cheia de criatividade.
Gostei mt do teu blog.
Tem uma boa semana e até à próxima visita...Sofia
(http://pezinhosdela.blogs.sapo.pt)
(mailto:sofia_ana1@sapo.pt)
De Anónimo a 14 de Julho de 2005 às 11:34
Acabou em bem, o verbo auxiliar, não queria ajudar, queria era aproveitar-se do artigo feminino, mas o substantivo, não deixou e fez muito bem, atirou-o pela janela. Uma nota merecida, porque imaginar uma história assim não é para qualquer um!segundavida
(http://segundavida.blogs.sapo.pt/)
(mailto:melo887@sapo.pt)
De Anónimo a 14 de Julho de 2005 às 04:53
Obrigado pela tua visita.Diverti-me imenso com este post.Está divino e ao mesmo tempo educativo.Voltarei.Abraço.Anibal
(http://mourani.blogs.sapo.pt/)
(mailto:mourani2@sapo.pt)
De Anónimo a 13 de Julho de 2005 às 18:17
Ai a gramática,essa malvada que me dava cabo da cabeça.Gostei especialmente do jogo de palavras.Gde imaginação.
Beijinhoskaldinhas
(http://kaldinhas.blogs.sapo.pt/)
(mailto:kaldinhas@sapo.pt)
De Anónimo a 13 de Julho de 2005 às 16:20
Em primeiro lugar obrigada pela visita.Em segundo lugar devo dizer que nada melhor do que um blog bem disposto como o teu :)))gaivotadaria
(http://GaivotadaRia.blogs.sapo.pt)
(mailto:bgaivota@sapo.pt)
De Anónimo a 13 de Julho de 2005 às 14:53
Tens razão. O texto é fabuloso. E, pelo meio, foi-me refrescando muita coisa de gramática que já se me varreu... Obrigado pela tua visita. Não li mais nada do teu blogue, mas voltarei logo que possa. Beijinhos***NILSON
(http://nimbypolis.blogspot.com)
(mailto:nimby33@hotmail.com)
De Anónimo a 13 de Julho de 2005 às 14:12
Como o tempo está "intemporar", não fui à praia e resolvi retribuir as visitas. Beijinhoslua_sol
(http://blogamizade.blogs.sapo.pt)
(mailto:lua_sol1@sapo.pt)
De Anónimo a 12 de Julho de 2005 às 23:19
Fantástico este texto. Nota Dez inteiramente merecida. E assim inteligentemente se brinca com a língua portuguesa. Bjoamita
(http://branco-e-preto.blogspot.com)
(mailto:amitaf324@hotail.com)
De Anónimo a 12 de Julho de 2005 às 20:59
Gostei desta aula de gramática, já era mais que sabido que a lingua portuguesa era traiçoeira, mas está visto que a culpa é mesmo da gramatica. Obrigada pela visita e pelo comentário que deixaste no meu blog. Voltarei! Bjscuriosa paixao
(http://curiosapaixao.blogs.sapo.pt/)
(mailto:curiosa-paixao@sapo.pt)

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